quinta-feira, 8 de Maio de 2008

OS PIONEIROS: RENTFRO, SCHWANTES E MEYER

O pioneiro do trabalho missionário que levaria à introdução da Igreja Adventista em Portugal foi um jovem norte-americano do Iowa, Clarence Emerson Rentfro (1877-1951). Estudara em vários colégios adventistas, nomeadamente, no de Battle Creek , no Union College e no Emmanuel Missionary College . Em 1904 (já lá vão portanto, mais de 100 anos), concluídos os seus estudos de Teologia, e recém-casado com a diplomada em enfermagem Mary Haskell, oferece-se para trabalhar na Europa. Enviado para Espanha, seria, por decisão de última hora da Conferência Geral, desviado para o vizinho Portugal. Instalados nos finais de Setembro, junto do Jardim da Estrela, na capital daquele que era então, mais um dos reinos da Europa, os Rentfro estabeleceram os primeiros contactos junto da comunidade anglicana, em particular com o pastor da congregação, naturalmente por afinidade linguística. O casal não possuía qualquer rudimento na língua de Camões, experimentando dificuldades compreensíveis na comunicação com os nativos. Não admira que o primeiro fruto do trabalho do casal de missionários viria a ser uma senhora inglesa, de seu nome Lucy, viúva daquele que fora um dos mais notáveis actores e cantores líricos nacionais, António Augusto Portugal.

Foram necessários quase dois anos para se lançarem os primeiros fundamentos do que viria a ser a Igreja Adventista em Portugal. Foi justamente na casa de Lucy Portugal, à Rua dos Industriais, nº 9, que em Junho de 1906, se realizou a 1ª Escola Sabatina no país, sem portugueses. Meses depois, mais precisamente em 21 de Setembro do mesmo ano, uma singular cerimónia baptismal viria a ter lugar ao princípio da noite, na frequentada praia de Carcavelos, durante a qual 4 almas, nomeadamente, Lucy Portugal e 3 membros de uma família de apelido Figueiredo, ganhos pelo trabalho de distribuição de folhetos. O facto de um dos novos prosélitos ser menor o que levava a temer uma possível intervenção das autoridades, explica a hora a que se efectivou a sessão. Dirigiu os trabalhos da mesma, o pastor brasileiro já consagrado Ernesto Schwantes, que havia chegado ao país poucos dias antes.

No dia seguinte (22 de Setembro) abria-se em Lisboa uma primeira sala de culto em Portugal, situada no 1º andar do nº 20 da Rua de São Bernardo, à Estrela. A celebração de uma Santa Ceia assinalaria essa inauguração pública. O ano não terminaria sem uma nova sessão baptismal, com a descida às águas da mesma praia de mais duas pessoas, desta vez o casal João e Maria Conceição Figueiredo. Estava-se em 8.Dezembro de 1906.

Entretanto, o pastor Schwantes que se fixara no Porto, ali estabeleceu na Rua do Bonfim, 124, uma sala que iria dar guarida aos seus primeiros membros baptizados. Isso aconteceria na praia da Aguda, não longe de Espinho, onde no ano de 1907 foram baptizadas 3 pessoas: o casal Dias Gomes, pais de António Dias Gomes que mais tarde viria a ser presidente da União Portuguesa, e o jovem João Pereira do Lago que se tornaria o primeiro colportor português. Foi, sem dúvida, um início tímido, mas perfeitamente justificado num estado de raízes profundamente católicas, em que a obediência à igreja estabelecida, andava identificada com a ordem monárquica que procurava conter as arremetidas democráticas e liberalizantes dos republicanos. Olhada como um “ novo rebento da árvore evangélica, de pouco mais de meio século” a igreja adventista foi apresentada por alguns órgãos da imprensa portuguesa, em artigos ou notícias do jornal como a que revista “ IllustraçãoPortugueza” publicou na época e que já apresentamos noutra secção deste blogue. Em todo o caso, a nascente Igreja Adventista em Portugal, designada como Missão Portuguesa e que até 1928 fez parte da União Latina foi, paulatinamente, crescendo à medida que as difíceis condições políticas, sociais e culturais o foram permitindo. Em 1910, implantada que fora a República, chegava a Portugal o jovem pastor suíço Paul Meyer substituindo o Pastor Schwantes já regressado ao Brasil no ano anterior. Meyer começa a trabalhar em Lisboa, passando Clarence Rentfro a ocupar-se da Igreja do Porto, acumulando ainda o cargo de Presidente da Missão Portuguesa. A Igreja arrolava então 21 membros em todo o território nacional.

Em Maio de 1911, o pastor Meyer revelava o clima que se vivia em Portugal relativamente ao fenómeno religioso, em artigo publicado na revista adventista francesa “Le Messager”, precursora da “Revue Adventiste”. O facto passava-se a uns 200 km da capital, durante uma viagem de trabalho daquele missionário acompanhado por um colportor (Alberto Figueiredo). Dizia então Paul Meyer “Tudo o que é religioso deixa os portugueses na mais completa indiferença. Para eles parece não existir diferença entre catolicismo e protestantismo, tudo é jesuitismo. Revistaram o irmão Figueiredo e como nada encontrassem, deixaram-nos em paz”.

O ano de 1912 foi excepcional para a Igreja de Lisboa. Nesta época de pioneirismo era prática comum abrir-se nova frente na seara do Senhor, isto é, novas salas iam sendo abertas, caso de se manifestassem dificuldades no avanço da obra. Nesse sentido, foi aberto no bairro dos Anjos, ao Intendente um salão no qual o Pastor Meyer passou a realizar conferências públicas que atraíram 70 a 90 pessoas bastante regulares. O resultado foi que em dois sábados de Junho, 18 pessoas foram acrescentadas à Igreja. Na Sessão Anual da União Latina que teve lugar na cidade de Lausanne (Suiça) de 9 a 14 de Agosto, o Pastor Meyer foi consagrado ao Ministério e o Conselho local em Portugal ficou constituído por C.E.Rentfro, P.Meyer e Abel Gomes. Em 5 de Outubro, nove preciosas almas foram baptizadas à beira-mar e ao finalizar o ano 53 aparecem no registo oficial da Igreja em Portugal (40 na capital e 13 no Porto).

Em Maio de 1913, o pastor Rentfro de férias nos Estados Unidos da América, participaria como delegado da Missão Portuguesa à Sessão da Conferência Geral, realizada na capital americana, regressando ao Porto no mês seguinte. Ali o obreiro bíblico Alberto Figueiredo começara uma série de conferências bem concorridas. Algumas visitas começam a guardar o sábado. Em Lisboa, no mês de Junho, 6 almas confessaram a sua fé, entrando nas águas baptismais.

Na sessão anual da União Latina de 1914, os obreiros credenciados eram os seguintes para o campo português: Rentfro e Meyer (pastores), Alberto Figueiredo (evangelista), Alberto Raposo (obreiro bíblico) e Joaquim Dias Gomes e Manuel Garcia ( colportores) e ao terminar o ano as Igrejas de Lisboa e do Porto registavam, respectivamente, 60 e 22 membros.

(A continuar)

Arquivista responsável pela recolha: H.Caprichoso